Meninas...(2012)


     Três crianças, três vidas. Tão jovens e com experiências que somente os adultos deveriam  viver.
     Elas moram numa casa precária com mais cinco irmãs, o pai e a mãe. Oito pessoas no total. O pai sonha em ter um filho homem e depois de oito tentativas ainda não desistiu. Vivem a base de bolsa família, pois se  o pai trabalhar vai ganhar menos do que ganha do governo com tantos filhos. É a velha história de dar o peixe ao invés de ensinar a pescar. Vive-se nas estatísticas fora da zona da miséria, mas só nas estatísticas...porque se a condição de vida desse povo não é miséria, não sei como classificar.
    As meninas calçam sapatos três vezes maior que seu número. Amarram bem forte pra não soltar do pé. As roupas são curtas e normalmente encardidas e velhas. Os cabelos compridos, descuidados e com rastros de piolho. Caminham uma hora e meia pra chegar na estrada onde passa o ônibus escolar, e por conta disso, acordam cinco da manhã todo dia. Mas apesar de tudo, elas sorriem pra minha foto.
     Essas meninas moram nos arredores de Curitiba e participaram da EBF que fizemos. Me chamaram a atenção desde o início porque não desgrudavam uma da outra, sempre de mãos dadas, fazendo tudo juntas. A maior e mais velha das três (9 anos) era como uma mãe. Servia o lanche, fazia o prato de comida, levava ao banheiro. Iam na fila da cama elástica juntas e pulavam uma após as outras. Depois de dois dias comecei a ver que isso nada mais era que uma maneira de sobrevivência. Elas se protegiam contra um mundo cruel que conhecem e estando juntas tem-se a impressão que nada as atinge.
     Soube que é costume na região "encaminhar" as meninas por volta de 15 anos. Entenda-se por "encaminhar" arranjar um homem de 40 anos que queira levá-las pra casa e sustentar, tornando-se suas esposas. Os pais agradecem, pois com tantas bocas pra comer uma a menos faz diferença. Incrível? Revoltante? Pois é...e isso a alguns quilômetros de Curitiba. Não estou falando do sertão nordestino onde não chega água, numa terra de ninguém...mas sim de capitais conhecidas e próximas a nós.
     Mas elas sorriem diante da foto. Sorriram nas brincadeiras e histórias. Falavam pouco, quase nada, mas suas vidas diziam muito. Me mostraram que a cumplicidade gera confiança e de certa forma esperança. Que não existe idade pra sacrifícios na vida. Que crianças sonham independente da sua condição de vida. Sonham porque sonhar é coisa de criança. Enxerguei, como nunca antes, a importância de um trabalho que traga esperança verdadeira e ajuda material. Fiquei feliz por existir um QG Gospel que faz isso. Fiquei realizada por ter feito parte disso por quatro dias e por saber que as histórias que foram contadas e as brincadeiras realizadas trouxeram alegria à triste vida delas e talvez mudaram seus corações pra sempre.
     Espero ver um dia que essas três meninas tiveram um destino diferente da maioria e que a amizade entre elas continue. Espero que a cumplicidade continue gerando esperança, que geram sonhos, que algum dia possam ser realizados. E que se tornem adultas com a alegria e inocência da infância, coisas que parece estar sendo roubada delas por enquanto!

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