VAMOS SAIR DO ARMÁRIO?
Calma...não vou falar sobre o movimento LGBT. Apesar de essa expressão ser usada muitas vezes para os homossexuais, tenho pensado muito nela de uma maneira diferente nos últimos meses. Tenho descoberto que existem muitos armários por aí...e muita gente escondida dentro deles. Eu, inclusive!
No filme Nárnia, quatro irmãos entram dentro do armário e descobrem um novo mundo onde vivem aventuras, se tornam guerreiros, reis e rainhas e anos depois, quando são adultos eles reencontram a entrada do armário e ao saírem dele voltam a ser as mesmas crianças, na mesma casa, na mesma situação. Acho intrigante essa história, pois me dá a lição de que não importa quanto tempo se fique num armário, o mundo real vai estar me esperando...com os mesmos problemas a serem enfrentados.
Tenho pensado nos armários que já entrei nesses 36 anos de vida. Normalmente entramos no armário pra nos esconder...essa sempre foi a idéia quando brincamos de esconde-esconde na infância. Depois ficamos adultos e entrar em armários francamente parece uma idéia bizarra...mas ficamos craques nessa arte e substituímos o armário físico pelo psicológico. Mas como em Nárnia, toda vez que me meto dentro dessas caixas de madeira não resolvo o problema...pelo contrario, apenas faço o tempo passar pois na hora que eu sair as coisas vão estar exatamente como deixei.
Mas que tipo de armários são esses? Bom, eis os que mais frequento:
JUSTIFICATIVAS: Esse armário é clássico. Não sei ou não quero resolver algo em minha vida... entro nele e um mundo de explicações me vem à mente. Não quero arrumar a casa, não consigo emagrecer, não paro de me preocupar, tenho medo, sou ansiosa...cada um desses aspectos tem uma justificativa excelente que me faz parecer certa diante dos outros. E assim vou protelando a limpeza, justificando a gula, embelezando a preocupação, medo e ansiedade. Na maioria das vezes o outro é o culpado e não eu... coisa típica desse armário! Aliás, esse foi o primeiro usado por humanos que se tem registro na humanidade: Adão culpa Eva, que culpa a serpente... Faço isso porque não quero lidar com essas coisas com o nome que elas tem: PECADO. Não quero encarar o quão feia e suja sou por dentro e o armário me dá uma rota de fuga pra não me olhar no espelho. O problema é que uma hora ou outra justificativas se tornam sufocantes e o armário insuficiente.
PRECONCEITO: Esse armário descobri há pouco tempo graças a um amigo. Nunca me achei preconceituosa até me dar conta do que realmente a palavra significa. É você ter PRÉ – CONCEITOS! Descoberta revolucionária né? Ok, isso todo mundo sabe, mas o armário do preconceito é aquele que entro quando convicções e idéias minhas são colocadas à prova. Porque nessas situações você só tem duas alternativas: se esconder dentro desse armário e ficar repetindo como um mantra aquilo que você aprendeu porque te falaram, porque alguém contou, porque disseram que é assim...ou sair do armário e admitir que talvez você não saiba tanto quanto imaginava, que precisa ler, pesquisar, estudar, buscar conselho, e principalmente encarar no que suas convicções são baseadas...na VERDADE IMUTÁVEL ou na sua vã sabedoria? É, dói mesmo...eu sei. Admitir nosso orgulho é sempre dolorido!
SE: Esse armário tem um nome pequeno mas é poderosíssimo, pois consegue gerar em quem o frequenta dúvidas, descontentamento, murmuração. SE eu ganhasse mais dinheiro... SE eu fosse extrovertida como ela... SE meu marido me fizesse mais feliz... SE eu tivesse filhos... SE eu não tivesse filhos... e aí a vida vai ficado cinza, o mundo lá fora vai parecendo sem esperança de melhorar pois os SEs da nossa existência nos matam um pouco a cada dia. Sair desse armário deve ser um desafio diário pois é tentador entrar nele e ficar sonhando com a vida que nunca teremos, a chances que nunca tivemos e os amores que nunca viveremos. E enquanto você vive nos sonhos de Nárnia, a vida fora do armário está passando com suas belas cores e possibilidades...mas você tá ocupado demais pra notar!
HIPOCRISIA: É o faça o que eu digo mas não faça o que eu faço! Incrivel é que Jesus falou tanto contra esse armário - ver o exterior do copo e não interior, enxergar o cisco no olho do outro e não a trave no seu – mas mesmo assim nós gostamos desse esconderijo exatamente porque a hipocrisia nos da sempre a impressão de que somos melhores que o outro, e assim nossa sujeira fica escondida. Conta-se que Gandhi foi abordado por uma uma mulher certa vez que lhe pediu: - “Por favor mestre, diga a meu filho que pare de comer açúcar!” Gandhi olhou pra ela e disse : “- Volte em duas semanas”. Ao final das duas semanas a mulher voltou com o mesmo pedido. Então Gandhi se abaixou, olhou bem nos olhos da criança e disse: “-Pare de comer doce!”. A mulher sem entender perguntou porquê ele não disse isso há duas semanas atrás. Ao que Gandhi respondeu: “- Há duas semanas, eu comia doces!”. Acho que fica clara a lição né?
Ainda podia citar mais um monte de armários: o da auto confiança, o da falsa humildade, da dissimulação, do egoísmo, vitimização. E sim...sou a frequentadora numero 1 de todos eles, infelizmente!
Me justifico dos pecados que não abandono, me refugio nos conceitos que tenho e nem sei de onde vieram, me alimento de sonhos impossíveis, me escondo naquilo que sou boa pra não enfrentar aquilo que não sei, sofro e quero que o mundo pare e sofra comigo. Me engano, me iludo, em refugio dentro de armários. Mas quero sair deles! Quero olhar pro mundo fora e derrotar de vez as coisas que me espantam. O armário pode parecer seguro, mas é escuro, mal cheiroso e pequeno. A vida é incerta, cheia de altos e baixos, mas tão clara, linda, limpa e absurdamente grande.
Aliás, essa é outra bela lição do filme. Os quatro irmãos vivem aventuras por duas temporadas em Nárnia... mas ao final da segunda viagem os mais velhos, Pedro e Susana são avisados que não poderão mais voltar as terras mágicas porque agora são adultos. SÃO ADULTOS. No armário não crescemos...somos eternas crianças. Não importa quanto tempo você passou lá dentro...quando sair vai ser inexperiente e infantil. Maturidade não se ganha dentro de armários...maturidade se ganha vivendo, caindo, levantando e lutando.
E o principal de tudo... Deus não vive em armários...Ele gosta de bater nas portas. E ele quer ser atendido, ele quer nos chamar pra fora desses casulos que nos prendem e quer andar com a gente, lado a lado! Por isso, não tenha medo de sair do armário! Pode ser assustador olhar no espelho e ver quantos esconderijos você tem aí dentro, quantas máscaras veste por dia pra ser aceito pelas pessoas. Eu entendo pois tenho tentado fazer isso e nem sempre é fácil. Mas “sair pra fora” é libertador!
E aí...vamos sair do armário????

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