O gelo que te fere é o mesmo que te cura!

   São 3/4 h da madrugada. Barraca no meio do campo. A chuva começa e acordo, mas as três meninas que dormem comigo parecem tranquilas. A chuva aumenta e sinto gotas entrando. Pego um casaco e tento tapar a parte de tela da barraca por onde sinto a água. Um barulho forte começa e sinto uma pancada na mão. Dois segundos e outra pancada de doer mesmo. Meu cérebro pensa acelerado assim como está meu coração, quando as meninas acordam. Meu Deus...é uma chuva de granizo e estamos dentro de uma barraca! As pancadas aumentam e minha mao que continua querendo sustentar a barraca dói muito. Desisto e só consigo pensar: "Vai furar! Deus... essas pedras vão furar a barraca e o que faço?" 
   Mando as meninas se vestirem e enfiarem o que dá na mochila! -"Orem gurias, só orem!" É o que consigo falar. Foram apenas 3 minutos que pra mim pareceram horas. Finalmente o barulho diminui e acaba. Resta um chão branco de pedras e minha mão dolorida e trêmula.
   Saímos da barraca pra descobrir que ela está intacta. E a dos outros também! Fora alguns pertences molhados o resto está inteiro e todos estão bem. Milagre! Agora restam os relatos de cada um e as risadas típicas de pessoas que após o caos riem de si mesmas com alivio.
Minha mão dói e tem um roxo. Instintivamente falo: "- Precisava de gelo!" A outra garota estende a mão fora da barraca, pega um granizo e me diz: "-Esse aqui?" A ironia leva ao riso e ponho gelo na mão. Então a mesma garota fala: "-Viu, o gelo que te fere é o mesmo que te cura!". 
Essa frase!!!! Me acompanhou o resto da semana e acho que vai me acompanhar pela vida.
   Penso em todas as vezes que pessoas e situações me feriram  e como essas mesmas coisas se tornaram a cura mais tarde, não porque elas mudaram, mas eu mudei. Eu PERDOEI!
   Meu marido que por vezes me fere com palavras e atitudes é o mesmo que me cura do meu orgulho quando preciso liberar perdão mesmo sem ele reconhecer seu erro.
   O diagnóstico do médico que me fere é o mesmo que me cura da independência arrogante de Deus e dos outros.
   O mau comportamento escolar do meu filho que me envergonha e fere diante da diretora é o mesmo que me cura da altivez de achar que sou mãe perfeita ou da mania de querer moldar ele ao meu jeito, da minha forma.
   O carro batido que me fere é o mesmo que me cura da sensação de que controlo minha vida.
   Tantas situações! Tantas pessoas! Tantas pedras batendo contra a frágil barraca chamada vida onde me protejo. Posso encarar elas como ameaças ou castigos e me fazer de vítima. Ou posso mudar o foco e entender que são essas coisas que provam que a vida não é tão frágil assim e você pode tirar proveito de tudo, TUDO que acontece.
   Aquilo que te fere é de alguma forma aquilo que te cura. A questão é: você está disposto a ficar na tempestade e ganhar alguns roxos pra aprender isso? Está disposto e perdoar, perdoar e perdoar de novo???
   Olho para o roxo da minha mão que já não dói tanto, mas a marca ficou. Lembro de Alguém que foi ferido numa cruz e o que feriu Ele me curou. Ele também ficou com marcas nas mãos e foi infinitamente pior que a minha. Infinitamente mais dolorido e injusto . E o motivo? PERDÃO!
Agora a pergunta que fica é: perdoar quem te fere pra ser curada ainda é só uma opção ou sua obrigação?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Trabalho fora/ dentro de casa

Por medo...

Apego