De 6 à 36...pra sempre a princesinha do papai

   Então ela nasceu!
   Ele esperava por ela, aliás foi ele quem escolheu seu nome: Hellen. Se inspirou numa cantora americana de sua época. Ainda lá, no hospital, segurando sua segunda filha nos braços, ele sabia que tinha ganhado mais uma princesinha...e que ela seria pra sempre dele.
    Mas a vida passa rápido e num piscar de olhos aquele bebe tinha 6 anos. Acompanhar na escola, levar na pracinha pra subir em árvores. Ir no shopping tomar sorvete e levar na empresa pra participar do natal dos funcionários. Ele ensinou ela a soltar pipa. Deixou que andasse de bicicleta e patins e que caísse e ralasse o joelho...pois sabia que não dá pra proteger a princesinha de todas as dores da vida. Ele protegeu, ele cuidou, ele orou. Ele obrigava a ir na igreja enquanto ela crescia e as vezes não queria. Ele disciplinou com uma cinta... surras bem dadas e mais que merecidas, pois ele sabia que isso transformaria seu caráter e não anularia seu amor. Ele deu presentes, ele disse muitos “nãos”. Ele rolava no chão brincando, fazia cosquinhas e mandava ir pro quarto pois aquele filme não era pra sua idade. A menina de 6 ia crescendo. As vezes ficava brava com ele...as vezes ria de chorar de suas brincadeiras...e enquanto crescia ela ia aprendendo como um homem se torna um pai de verdade.
    Mas a vida passa rápido e a menina de 6 fez 16. Paqueras rondando a casa, crises sobre o que fazer depois da escola normal, crises sobre não ter nada pra vestir no armário, sobre estar gorda demais, feia demais. Ele continuava ali...agora as conversas eram diferentes. As surras já não existiam mais. Agora eles sentavam na mesa e trocavam idéia. Ela via filmes, antes proibidos, com ele, afinal já tinha 16 anos. As broncas ainda existiam, as cobranças por boas notas também e as responsabilidades eram cobradas. Mas também continuavam existindo as risadas, o rolar no chão pra brincar, o colo de pai que ela sempre queria! Ele viu ela crescer e se apaixonar pelo seu príncipe. Ele disse sim pra começar esse relacionamento. Ele viu a princesinha de 6 se transformar numa adolescente e agora numa mulher...mas pra ele, ela continuava a princesinha. Ele continuava protegendo, cuidando, orando. Quando a princesinha casou ele levou ela ao altar e disse exatamente essas palavras pra seu futuro genro:
    - Hugo, durante 20 anos nós demos a Hellen, amor, carinho e proteção. Agora eu te entrego ela e espero que você continue fazendo isso.
Acho que pro príncipe isso soou como ameaça...mas pra princesa soou como ela esperava. Ele continuava sendo o pai e nada mudaria.
    Mas a vida passa rápido e de repente a adolescente de 16 fez 26. Agora casada, segurando um bebe nos braços, ela se despedia do seu pai. Ele morreu assim, de repente. Ela com 26...ele com 66! Como ela sobreviveria? Onde buscaria conselhos? Proteção? Ele era o porto seguro dela em muitas situações! Agora ela tinha uma princesa em seus braços pra amar e cuidar como ele fez...mas não tinha ele pra ver isso. Não tinha ele pra dar direção quando necessário e solicitado. Saber que ela não ia mais ouvir sua voz no telefone era cruel. Comer arroz doce, mousse de maracujá e ouvir Richard Clayderman  eram motivos de saudade e as vezes choro. Mas ela aprendeu que se o passado não te aprisiona, ele te faz mais forte. Decidiu que o legado maior dele era a diferença que ele fez na vida dela. Ele soube ser pai, cuidar e amar e agora ela, junto ao marido, iriam fazer o mesmo. E apesar da dor e da saudade tudo continuava.
    Mas a vida passa rápido e a mulher de 26 fez 36. Agora com dois filhos e muitos outros desafios e conquistas. E de década em década a vida foi seguindo seu rumo. E num piscar de olhos ela percebe que faz 10 anos que ele se foi. NOSSA... 10 ANOS? Difícil acreditar. Hoje ela vê traços do pai nos filhos. Uma ama filmes, o outro ama futebol...assim como ele. Hoje a saudade e a dor já não são tão intensas...mas as lembranças ainda são vivas a tal ponto que ela ri sozinha quando lembra uma de suas piadas totalmente sem graça...mas que faziam ela rir muito.
Dez anos se passaram e a princesinha sobreviveu. Não só isso...cresceu, amadureceu. Hoje ela lida com o assunto morte de forma muito natural pois sabe que todos vão morrer e que o importante é o que se faz enquanto viver.
    Meu pai não ganhou prêmio Nobel, nem fez grandes descobertas. Ele não era rico e não deixou herança material. Ele não nos levou na Disney ou outras viagens muito legais. Ele não me deu tudo que eu queria ter. Ele não foi extraordinário aos olhos humanos e seu nome não está na placa de uma rua ou em homenagem em alguma escola. Mas ele não precisou fazer nada disso pra ser inesquecível pra mim.
    Hoje lembro dele com alegria, orgulho, respeito. Hoje vejo todos os sacríficos que fez, dores e decepções que passou, crises que enfrentou porque eu passo pelas mesmas coisas. Hoje faço com meus filhos muito do que ele fazia comigo. E se pra ser lembrado pela eternidade é preciso fazer apenas uma coisa notável, meu pai fez. Ele foi PAI...e isso foi suficiente!

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